quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A carreiras liberais ou À carreiras liberais

dúvida do leitor
A leitora Marilene Paulo de Oliveira envia-nos a seguinte mensagem:

"Na Gramatigalhas (Migalhas 2.680 - 27/7/11 - Gramatigalhas - clique aqui) - item 5 - está colocado 'hoje com franco acesso a carreiras liberais'. Pergunta: - não seria 'acesso à carreiras liberais'?"

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A carreiras liberais ou À carreiras liberais

1) Uma leitora indaga:

I) se estaria correta uma frase posta em uma publicação ("... hoje com franco acesso a carreiras liberais...");

II) ou se seria melhor dizer de outro modo ("... hoje com franco acesso à carreiras liberais...").

2) Ora, tecnicamente, crase significa, na maioria dos casos, a fusão da preposição "a" com o artigo "a" ou "as".

3) Como o artigo "a" ou "as" acontece antes de nomes femininos, há um artifício prático para reconhecer se há ou não crase:

I) substitui-se a estrutura feminina, onde repousa a dúvida, por uma estrutura masculina;

II) se no masculino aparece "ao" (ou seja, a [preposição] + o [artigo masculino]), haverá crase no feminino (ou seja, a [preposição] + a [artigo feminino]). Exs.: a) "Encontrei a menina" (porque Encontrei o menino); b) "O livro pertence à menina" (porque "O livro pertence ao menino").

4) Feita essa observação, anota-se, quanto ao caso da consulta:

I) quando se diz "... hoje com franco acesso a carreiras liberais...", tem-se um "a" antes de carreiras;

II) ou seja, tem-se um a (que não é plural) antes de um substantivo feminino do plural (carreiras);

III) neste a (que não está no plural) não pode haver artigo, já que nele não há indicação alguma de existência de plural;

IV) então, obviamente, ele é só preposição;

V) e só a preposição não dá crase;

VI) por isso é que, na prática e por facilidade, se costuma dizer, como regra, que não há crase, se o "a" está no singular, mas antes de um nome feminino do plural.

5) É claro que se poderia ter uma outra frase parecida com a da consulta: "... hoje com franco acesso às carreiras liberais...":

I) nesse caso, porém, a estrutura já é outra;

II) tem-se um "as" antes de carreiras;

III) a substituição, com o emprego de um masculino, pode-se fazer com a expressão cargos liberais;

IV) e o resultado é "... hoje com franco acesso aos cargos liberais...";

V) exatamente por aparecer "aos" no masculino, então há crase no feminino.

6) Comparem-se as estruturas seguintes (todas corretas), para não haver equívocos. Nos dois primeiros casos, o substantivo está sendo tomado em sentido genérico; nos dois últimos, tomado em sentido específico:

I) "... hoje com franco acesso a carreiras liberais...";

II) "... hoje com franco acesso a cargos liberais...";

III) "... hoje com franco acesso às carreiras liberais...";

IV) "... hoje com franco acesso aos cargos liberais..."

Antes de ou Antes que?

dúvida do leitor
O leitor Lúcio Mariano envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

O professor José Maria da Costa pode esclarecer quando devemos usar "Antes de" ou "Antes que" ?

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1) Antes de rege palavras ou verbos nas formas nominais. Exs.: a) "Antes das quatro, o réu já estava acordado"; b) "Antes de morrer, o detento feriu um policial".

2) Na lição de José de Nicola e Ernani Terra, "antes de é locução prepositiva e deve ser usada antes de palavras ou orações reduzidas”. Exs.: a) "Antes de outras questões, devo dizer que não concordo"; b) "Abasteceu o carro antes de viajar".

3) Antes que, por sua vez, é locução destinada a ligar orações. Ex.: "A testemunha saiu, antes que ocorresse alguma desgraça".

4) Para José de Nicola e Ernani Terra, "antes que é locução conjuntiva e deve ser usada antes de orações desenvolvidas". Ex.: "Saia rapidamente antes que chova".

Não existe “antes de que”, essa construção é um espanholismo. O certo é “antes que”, assim como “depois que” (e não “depois de que”, construção existente apenas no espanhol). Exemplo: “Antes que caíssem, consegui segurá-los um a um”. No entanto, vale lembrar que é correto e obrigatório o “de” na forma “apesar de que”.

Amámos ou Amamos?

dúvida do leitor
A leitora Letícia Vizotini de Almeida envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"É verdade que as recentes modificações na Ortografia passaram a obrigar o uso do acento agudo na forma verbal amámos (pretérito perfeito) para distingui-la de amamos (presente do indicativo)?"

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Amámos ou Amamos?

1) Um leitor indaga se as recentes modificações na Ortografia passaram a obrigar o uso do acento agudo na forma verbal amámos (pretérito perfeito) para distingui-la de amamos (presente do indicativo).

2) Ora, contrariamente ao que muitos pensam, o Acordo Ortográfico de 2008 não veio para simplificar a escrita; seu objetivo maior foi justificar as escritas de Brasil e Portugal, ou, talvez, sistematizá-las, mediante a permissão de emprego de formas distintas usadas em ambos os países.

3) Assim, para acertar a duplicidade de pronúncias dos dois países, criou ele a dupla possibilidade de grafia, mediante a diferenciação, pelo acento agudo, da primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo dos verbos da primeira conjugação, pronunciadas com som aberto (louvámos, adorámos e falámos), formas essas pronunciadas de modo aberto em Portugal, para opor-se à primeira pessoa do plural do presente do indicativo (louvamos, adoramos e falamos).

4) Vale lembrar que, no Brasil, com raras exceções de usuários que tiveram contatos prolongados com Portugal, não se faz distinção de pronúncia entre a primeira pessoa do plural do presente do indicativo e a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo, de modo que ambas são aqui pronunciadas com som fechado.

5) Mas, em termos do que é a situação após o Acordo Ortográfico de 2008, sintetize-se a questão com duas observações: a) O acento ocorre no pretérito perfeito, mas não no presente do indicativo; b) Tal acento é facultativo, e não obrigatório.

6) Com essas premissas, confiram-se, quanto à grafia, os seguintes exemplos, com a indicação de sua correção ou erronia entre parênteses: a) "Será que hoje amamos os inimigos?" (correto); b) "Será que hoje amámos os inimigos?" (errado); c) "Será que, no passado, amamos os inimigos?" (correto); d) "Será que, no passado, amámos os inimigos?" (correto).

A cores ou Em cores?

dúvida do leitor
O leitor Conrado de Paulo envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Caro professor: 'TV a cores', ou 'TV em cores'?"

O leitor Fábio Alves também envia a seguinte mensagem:

"O correto não seria em cores na frase: 'Desmentiu-o ao vivo e a cores'. (Migalhas 1.908 – 2/6/08 – "Eco")?  Obrigado."

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A cores ou Em cores?

1) Para Napoleão Mendes de Almeida, "é erro grosseiro dizer televisão a cores", admitindo tal autor em cores, mas revelando preferência pelo adjetivo colorido, em expressões como imagens coloridas, TV colorida, filme colorido, cinema colorido.1

2) Já na conformidade com o ensinamento de Domingos Paschoal Cegalla, "ambas as locuções são corretas: televisor a (ou em) cores, gravura a (ou em) cores". Acrescenta tal autor haver "nítida preferência pela primeira variante". E pondera, em conclusão: "Há quem afirme que a forma a cores é galicismo, o que não procede, porquanto o francês, neste caso, usa a preposição en e não a: une carte postale en couleurs, télévision en couleurs".2

3) Em casos dessa natureza, pelo vetusto princípio de que, na dúvida entre os gramáticos, há liberdade de emprego para o usuário do idioma, aceitam-se como corretas ambas as expressões.

4) Observa-se, todavia, não parecer adequada a expressão TV colorida (para significar transmissão em cores), ante a possível confusão com a cor do próprio aparelho.

António ou Antônio? Ou tanto faz?

dúvida do leitor
O leitor Antônio de Souza Nogueira envia a seguinte mensagem ao Gramatigalhas:

"Ouvi dizer que António é a grafia correta do meu nome após as recentes modificações em nossa ortografia. É isso verdade ou não?"

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António ou Antônio?

1) Um leitor de nome Antônio ouviu dizer que António é a grafia correta do seu nome após as recentes modificações em nossa ortografia e indaga se isso corresponde à realidade ou não.

2) Vale a pena lembrar, de início, que, contrariamente ao que muitos pensam, o Acordo Ortográfico de 2008 não veio para simplificar a escrita; seu objetivo maior, em verdade, foi unificar a duplicidade de escritas de Brasil e Portugal, ou, quando muito, sistematizá-las, mediante a permissão de emprego de formas distintas usadas em ambos os países.

3) Também não se deve esquecer, quanto aos fatos da língua, que uma palavra como a da consulta, em que a sílaba tônica vem logo antes de um som nasal (normalmente antes de m ou n), é pronunciada de modo fechado (ô) no Brasil, mas com o timbre aberto (ó) em Portugal.

4) Ante tal realidade, ao sistematizar a duplicidade de pronúncias dos dois países, o Acordo Ortográfico, querendo legalizar a ambas perante a ortografia, determinou de modo expresso que "levam acento agudo ou acento circunflexo as palavras proparoxítonas, reais ou aparentes, cujas vogais tônicas/tónicas grafadas e ou o estão em final de sílaba e são seguidas das consoantes nasais grafadas m ou n, conforme o seu timbre é, respectivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua".

5) Seguem alguns exemplos dessa correta duplicidade de grafias: acadêmico/académico, anatômico/anatómico, cênico/cénico, cômodo/cómodo, fenômeno/fenómeno, gênero/género, topônimo/topónimo, Amazônia/Amazónia, Antônio/António, blasfêmia/blasfémia, fêmea/fémea, gêmeo/gémeo, gênio/gênio, tênue/ténue.


6) Duas observações não podem ser esquecidas: a) Em todas essas palavras, sempre há um acento obrigatório; b) O que se põe ao usuário é a opção de empregar acento circunflexo (^) ou acento agudo ('), conforme a pronúncia do país.

Antônio e António / Antônia e Antónia - dupla grafia (primeira forma - Brasil; segunda forma - Portugal e demais países lusófonos)

Lhe – Só pode ser objeto indireto?

dúvida do leitor
O leitor Rodrigo Ramos envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Caro professor: Pelo que entendi das lições trazidas nas Gramatigalhas 'Obrigava-o ou Obrigava-lhe?' (clique aqui), o pronome lhe é usado para substituir o complemento de um verbo transitivo indireto. Ocorreu-me, porém, uma dúvida sobre um caso que parece fugir à explicação dada. Está correta a seguinte frase: 'Vêm os suplicantes propor a presente ação, com o objetivo de ser-lhes reconhecido o direito de receberem o acréscimo remuneratório'? Muito obrigado."

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1) Um leitor viu em algum lugar que o pronome o serve para funcionar como objeto direto, enquanto o pronome lhe, como objeto indireto. Teve dúvidas, entretanto, sobre uma frase que lhe pareceu fugir do enquadramento dado pelo referido raciocínio. E pergunta se ela está correta quanto ao emprego do mencionado pronome: "Vêm os suplicantes propor a presente ação, com o objetivo de ser-lhes reconhecido o direito de receberem o acréscimo remuneratório".

2) Antes de responder ao leitor quanto à correção ou erronia do exemplo trazido por ele para análise, importa observar que o pronome lhe pode ser, por um lado, objeto indireto; mas também pode desempenhar outras funções: a) pronome com a função de objeto indireto ("Dou-lhe os parabéns, meu amigo"); b) pronome possessivo com a função de adjunto adnominal ("A gravata de cetim preto imobilizava-lhe o pescoço" – equivalendo a "... imobilizava o seu pescoço"); c) pronome com função de complemento nominal ("Era-lhe difícil a caminhada" – equivalendo a "Era difícil para ele a caminhada").

3) Ainda antes de responder ao leitor, também se fazem algumas considerações preliminares sobre transitividade verbal, iniciando por listar quatro exemplos para análise: a) "O juiz silenciou"; b) "O juiz quebrou o silêncio"; c) "O documento pertence aos autos"; d) "O juiz entregou os autos ao advogado".

4) No primeiro exemplo ("O juiz silenciou"), o verbo é suficiente e bastante em si, sem precisar de complementos. Tecnicamente, é um verbo intransitivo.

5) No segundo exemplo ("O juiz quebrou o silêncio"), o verbo precisa de um complemento, que a ele se ligue diretamente, isto é, sem o auxílio de preposição. Tecnicamente, um verbo transitivo direto.

6) No terceiro exemplo ("O documento pertence aos autos"), o verbo necessita de um complemento, que a ele se ligue indiretamente, vale dizer, com o auxílio da preposição a. Tecnicamente, um verbo transitivo indireto.

7) No último exemplo ("O juiz entregou os autos ao advogado"), o verbo exige os dois complementos: a) um que se ligue a ele diretamente, sem auxílio de preposição (os autos); b) e outro que desempenhe essa atividade por intermédio da preposição a (ao advogado). Tecnicamente, um verbo transitivo direto e indireto (que alguns ainda denominam verbo bitransitivo).

8) E, ainda antes de responder ao leitor, por serem importantes para o caso, tecem-se alguns comentários sobre vozes do verbo, a começar pelo apontamento de dois exemplos para análise: a) "Esta é uma ação para que o tribunal reconheça aos autores o direito pretendido"; b) "Esta é uma ação para que o direito pretendido seja reconhecido pelo tribunal aos autores".

9) No primeiro exemplo, que é sintaticamente correto, do trecho "... o tribunal reconheça aos autores o direito pretendido...", extraem-se as seguintes ilações: a) o tribunal é o sujeito; b) o direito pretendido é o objeto direto; c) se se quiser substituir o objeto direto por um pronome, este será o ("... o tribunal o reconheça aos autores"); d) aos autores é o objeto indireto; e) se se quiser substituir o objeto indireto por um pronome, este será lhes ("... o tribunal lhes reconheça o direito pretendido..."); f) o verbo é transitivo direto e indireto; g) a ação indicada pelo verbo (reconhecer) é praticada pelo sujeito (tribunal); h) porque o sujeito pratica a ação indicada pelo verbo, então se diz que o exemplo está na voz ativa.

10) No segundo exemplo, que também é sintaticamente correto, do trecho "...o direito pretendido seja reconhecido pelo tribunal aos autores...", as seguintes conclusões podem ser tiradas: a) o sujeito é o direito pretendido; b) a ação de reconhecer não é praticada pelo sujeito, mas pelo tribunal; c) o sujeito, como se vê, recebe ou sofre a ação indicada pelo verbo; d) porque o sujeito sofre a ação indicada pelo verbo, então o exemplo está na voz passiva; e) e o termo que pratica, na voz passiva, a ação indicada pelo verbo, chama-se agente da passiva, ou agente da voz passiva (no caso, pelo tribunal); f) a passagem da voz ativa para a voz passiva, como não é difícil perceber, é apenas uma variação da maneira de expressar a mesma realidade; g) e essa passagem de voz apenas mexe com o sujeito da ativa (que passa a ser agente da passiva) e com o objeto direto da ativa (que passa a ser o sujeito da passiva); h) por isso, como há objeto indireto na voz passiva, ele continua sendo objeto indireto na voz passiva; i) reitere-se, assim, que aos autores, que era objeto indireto na voz ativa, continuará sendo objeto indireto na voz passiva; j) como conceitualmente não há objeto direto na voz passiva, então não há possibilidade de aparecer nela o pronome o; k) como, todavia, o que era objeto indireto na voz ativa continua sendo objeto indireto na voz passiva, então nada impede que aqui apareça o pronome lhes ("... o direito pretendido lhes seja reconhecido pelo tribunal...").

11) Responde-se diretamente ao leitor com relação ao exemplo por ele trazido para análise: a) genericamente, o lhe, além de objeto indireto (como em "Dou-lhe os parabéns, meu amigo"), pode desempenhar outras funções sintáticas; b) uma delas é ser pronome possessivo com a função de adjunto adnominal ("A gravata de cetim preto imobilizava-lhe o pescoço"- equivalendo a "... imobilizava o seu pescoço"); c) outra delas é funcionar como pronome que tenha a função sintática de complemento nominal ("Era-lhe difícil a caminhada" – equivalendo a "Era difícil para ele a caminhada"); d) quanto ao exemplo "... com o objetivo de ser-lhes reconhecido o direito...", o sujeito é direito, que recebe a ação praticada pelo verbo; e) isso significa que o exemplo está na voz passiva; f) na voz ativa, o exemplo seria "... com o objetivo de que lhes reconheçam o direito..."; g) nesta voz ativa, o sujeito é indeterminado, e o direito é o objeto direto; h) sendo indeterminado o sujeito na voz ativa, isso quer dizer que o exemplo não tem agente da passiva; i) em ambos os casos, o lhes é objeto indireto (que, como se sabe, não muda de função na passagem de voz).

Vírgula – Pode existir com as orações substantivas?

dúvida do leitor
Um leitor envia a seguinte dúvida ao Gramatigalhas:

"Mestre, por gentileza, gostaria que me respondesse uma pergunta: as orações subordinadas substantivas deslocadas (antes da principal, obviamente) são ou não são separadas por vírgula, do ponto de vista dos gramáticos? Pergunto isso, pois o Sacconi diz que sim. O que os grandes nomes dizem sobre isso? Nada encontrei... Dúvida cruel!!! Grande abraço de um fã seu!".

Um outro leitor, em mesmas circunstâncias, envia a seguinte questão:

"Mestre, quais orações subordinadas substantivas, quando deslocadas para antes da principal, são separadas por vírgula? Todas ou só algumas? Por exemplo, seriam obrigatórias ou facultativas estas vírgulas: 'Que ele volte, não me importa', 'Se ele vem, ainda não sei'... Conhece algum gramático tradicional que bate o martelo na questão? Obrigadão!"

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1) Um leitor parte da afirmação de que as orações substantivas normalmente se separam sem vírgula da oração principal. E indaga se, quando deslocadas, isto é, quando vêm antes da principal, são ou não são separadas por vírgula. E pergunta adicionalmente se tal vírgula é obrigatória ou não. Remata questionando se os gramáticos conhecidos tocam nesse assunto.



2) Ora, a primeira regra geral de proibição de vírgula diz que, por não haver separação lógica nem ruptura de encadeamento entre termos que, pela própria estruturação da frase, estão em total dependência sintática, não será ela usada entre: a) sujeito e verbo ("O juiz proferiu uma sentença condenatória"); (b) verbo e objeto direto ("O juiz liberou o réu"); c) verbo e objeto indireto ("O réu depende da sentença"); d) verbo e predicativo do sujeito ("A sentença foi longa"); e) verbo e agente da passiva ("Uma sentença condenatória foi proferida pelo juiz"); f) adjunto adnominal e substantivo modificado ("A resposta do réu provocou indignação"; g) complemento nominal e vocábulo completado ("A resposta ao magistrado provocou indignação"). A única exceção é o aposto, que se separa por vírgula, dois-pontos, travessão ou parênteses (O juiz, especialista em Direito, proferiu a sentença rapidamente).



3) Por extensão da própria regra anterior, a vírgula também não será usada entre as orações principais e aquelas que exerçam as funções sintáticas de sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo do sujeito e complemento nominal, exatamente as chamadas orações substantivas (assim chamadas por desempenharem uma função própria de um substantivo), as quais, desse modo, serão denominadas, respectivamente, subjetivas, objetivas diretas, objetivas indiretas, predicativas e completivas nominais. São exceção à regra as orações que exercem a função sintática de aposto, as quais, são denominadas apositivas, que podem ser separadas por vírgula, dois-pontos ou travessão.



4) Exemplifica-se para melhor entendimento: a) "É muito importante que se preserve o estado de direito" (subjetiva); b) "Os homens de bem querem que se preserve o estado de direito" (objetiva direta); c) "Todos necessitam de que se preserve o estado de direito" (objetiva indireta); d) "O desejo de todos é que se preserve o estado de direito" (predicativa); e) "Todos têm necessidade de que se preserve o estado de direito" (completiva nominal).



5) Com essas premissas e esclarecendo que os gramáticos conhecidos não tocam nesse assunto, passa-se a responder aos leitores: a) a regra de que a ordem direta dispensa a vírgula no período simples traz, como corolário, ainda no período simples, a regra de que a inversão dos termos da oração permite separação por vírgula, sobretudo quando o termo invertido é de razoável extensão ("Em reação coletiva, toda a plateia se levantou"); b) no que concerne às orações substantivas, a estruturação típica dos períodos em que elas se situam é exatamente aquela que foi delineada nos exemplos acima, a saber, oração principal + oração subordinada substantiva; c) embora raramente os casos práticos permitam, a anteposição da oração subordinada substantiva, por fugir à estruturação típica desses períodos, constituirá verdadeira inversão; d) e essa inversão poderá ser marcada pela vírgula ([i] "Que se preserve o estado de direito, é muito importante"; [ii] "Que ele volte, não me importa" [iii] "Se ele vem, ainda não sei"); e) como a inversão, nesses casos, é de significativa extensão, então a vírgula, de facultativa como regra geral, passa a ser obrigatória.



6) Apenas se tecem, por fim, embora ligeiros, oportunos comentários à observação do leitor de que os estudiosos, de um modo geral, nada falam sobre isso. É que, num primeiro aspecto, apenas a partir da década de cinquenta do século XX, a pontuação tomou significativo impulso e passou a orientar-se – além das razões sintáticas tradicionais e dos impulsos subjetivos – pelas recomendações e exigências mais apuradas da redação técnica. Isso faz concluir que os chamados clássicos de nossa literatura nem sempre lhe atribuíram posição de relevo, motivo pelo qual não é incomum encontrar, mesmo em abalizados escritores, erros de pontuação similares aos cometidos hoje por qualquer usuário médio do idioma. Por outro lado, os livros de Gramática de hoje também apresentam poucos elementos sobre o assunto por duas razões: primeira, os gramáticos de peso normalmente têm sua formação forjada na primeira metade do século XX, vale dizer, antes do despertar para esse assunto; segunda, por um abissal equívoco dos responsáveis, o ensino da Gramática deixou de ter importância significativa nos currículos de nossas escolas exatamente no começo da segunda metade do século passado, o que significa pequenos esforços, estudos e progressos nesse campo.

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