sábado, 29 de maio de 2021

Através de e por meio de

 Por mais que a tecnologia esteja bem evoluída, ainda é impossível literalmente atravessar as telas. A diferença entre as duas expressões é, originalmente, bem clara: a locução "através de" possui significado ligado a movimento físico, indicando a ideia de atravessar. É sinônimo de "pelo interior de", "por dentro de". Exemplos: "O namorado passou uma flor através da janela" “Olhava através da vidraça o que acontecia na rua” Já "por meio de" se relaciona à ideia de instrumento, utilizado na execução de determinada ação. Exemplo: "Eu enviei o pacote por meio do correio" “Farei uma explicação mais precisa por meio de um exemplo” O que ocorre é que, num processo metafórico, as duas expressões acabaram se confundindo. Os elementos linguísticos que denotam movimento físico foram sendo progressivamente empregados para referências ao movimento não físico e, em seguida, para outras referências. Assim, a expressão "através de" passou a ser empregada em um leque maior de situações, como em: "Eu conheci meu namorado através da internet", em vez de "Eu conheci meu namorado por meio da internet". No entanto, enquanto não for possível de fato atravessar literalmente um computador ou um celular para ir ao encontro do seu par, é recomendado o uso da locução "por meio de". Vale lembrar que as construções linguísticas que fogem às regras da variedade padrão, embora inteligíveis, não devem ser usadas em contextos formais, como a escola. 

Risco de vida ou de morte?

 “Vejo (inclusive na revista VEJA) e ouço falar muito na seguinte expressão: ‘Ele corre risco de vida’. O certo não seria ‘Ele corre risco de morte’? Qual é o correto?”    Entende-se a angústia do leitor. A pressão social pelo uso de “risco de morte”, expressão emergente, como se houvesse algo errado no consagrado “risco de vida” que herdamos de nossos pais, é uma questão com que se defronta qualquer pessoa menos distraída no Brasil de hoje. É também o maior exemplo de vitória do besteirol sabichão que temos na língua. A questão tem cerca de dez anos, talvez quinze. O certo é que quando Cazuza cantou, em 1988, “o meu prazer agora é risco de vida” (na canção Ideologia), ainda não passava pela cabeça de ninguém corrigi-lo. Mais tarde, professores de português que exerciam o cargo de consultores em redações conseguiram convencer os chefes de determinados jornais e TVs de sua tese: “Como alguém pode correr o risco de viver?”, riam eles. Era um equívoco. Julgavam ter descoberto uma agressão à lógica embutida no idioma, mas ficaram na superfície do problema, incapazes de fazer uma análise linguística mais sofisticada e compreender que risco de vida é risco para a vida, ou seja, risco de (perder a) vida. O que, convenhamos, nem teria sido tão difícil. Muita gente engoliu desde então o risco de morte. De tanto ser martelada em certos meios de comunicação, inclusive na TV Globo, a nova forma vai sendo adotada por multidões de falantes desavisados. O que era previsível, mas não deixa de ser meio constrangedor. Não se trata de dizer que risco de morte seja, como alegam seus defensores a respeito de risco de vida, uma expressão “errada”. Não é.  Concordo com quem diz que chance é para coisas positivas e risco é para coisas negativas.

Melhoria ou melhora / Café expresso ou espresso?

 Melhora/Melhoria - Estas palavras confundem e devem ser usadas em situações diferentes. Use "melhora" apenas quando você estiver referindo-se à saúde de alguém. Assim: "O paciente já apresenta melhora". Nas demais situações, use sempre "melhoria". Assim: "Houve uma melhoria no setor habitacional do país". Café Expresso ou Café Espresso, qual a grafia correta? De tempos para cá, quando se refere ao café, alguns têm adotado a palavra espresso no lugar de expresso. Erro de ortografia? Não. A palavra espresso, usada na Europa, vem do italiano e sua raiz guarda relação com o verbo latino que, em português, deu origem a espremer e também a expressar. Não há registro de espresso nos dicionários de língua portuguesa. Então, fica a dúvida sobre a forma correta de escrever: café expresso ou espresso? Expresso significa rápido e um café “espresso” (de espremido em português), feito sob pressão. Espresso deve ser aceito, segundo especialistas, porque o vocabulário corrente admite palavras estrangeiras, como shopping, que é do inglês. E está errado dizer expresso? Não, porque de fato o café espremido (ou espresso) na máquina fica pronto entre 15 e 20 segundos, rápido e, portanto, expresso. 

Números por extenso ou em algarismos?

 A maioria das pessoas acha que os números de um texto formal sempre devem ser escritos por extenso. Na realidade, existem algumas diretrizes que determinam se há necessidade de se escrever o número por extenso ou se é possível escrever o algarismo. Seguem, como material de consulta, as principais diretrizes de uso dos números em textos de Redação Empresarial. Escreva todo número abaixo de dez por extenso As nove máquinas compradas pela empresa apresentaram problemas. O diretor assinou os oito contratos sem ler as cláusulas com cuidado. Exceções: unidades de medida como latitude e longitude, comprimentos, pesos, capacidades, áreas e volumes, idade, tempo, horas, datas, números de páginas, porcentagens, valores, proporções, resultados esportivos, resultados de votação, seriação, sequência, endereços, telefones, documentos e placas de automóveis. Exemplos: 2 metros     32 anos     8h00     16 de novembro     Página 4     51%     R$ 50,00 Escreva números sempre que dois ou mais estiverem em um mesmo período No 4º dia do evento, 42% dos convidados não compareceram nas 50 mesas redondas agendadas. Nunca misture número com numerais (por extenso) Em vez de: No sexto dia do lançamento, 20% do novo produto ainda não estavam distribuídos. Escreva: No 6º dia do lançamento, 20% do novo produto ainda não estavam distribuídos. Escreva os grandes números na forma mais familiar ao leitor Pondere qual é mais familiar: 185.000.000       1,85 x 108           185 milhões         185 x 106 Use números seguidos de palavras quando os últimos cinco ou seis dígitos forem zero 3 milhões (em vez de 3.000.000) 160 milhões (em vez de 160.000.000) Escreva decimais e frações em números 0,39 (e não zero vírgula trinta e nove) ¾ (e não três quartos) Se o número é uma aproximação, mencione Aproximadamente 13 milhões… Cerca de 30 metros distante… Perto de 15 litros se perderam… Não comece uma frase com números Quatro quintos do território de vendas e não 4/5 do território de vendas ou 4 quintos do território de vendas. Três mil e quatrocentos reais foi o custo do treinamento e não R$3.400,00 foi o custo do treinamento. Só se usa a forma 02, 03, 09 em documentos de natureza legal, fiscal, jurídica ou cartorial 

Comunicamo-lhe ou comunicamos-lhe?

A construção gramaticalmente correta é a segunda, ainda que pareça mal sonora.  Essa história de cortar o "s" final do verbo, ao pospor-lhe um pronome oblíquo, só é válida para os pronomes "o" (e variações) e "nos" e não para os pronomes "lhe", "lhes". Escrevamos, portanto, "consideramo-nos", "esperamo-la", , mas "comunicamos-lhes", "oferecemos-lhe".  

Bifê ou bufê? A língua francesa forneceu um grande número de palavras à língua portuguesa, muitas das quais já foram aportuguesadas. Assim, a palavra francesa buffet foi aportuguesada para bufê (com o "u" sendo pronunciado como "u" mesmo). Entre outras palavras, muito comuns em nosso dia a dia, que vieram do francês e que já foram aportuguesadas, podemos citar alguns já consolidados, como: batom, chique, boate, chassi, marrom e alguns pouco usados, como avalancha, guidão, garção, vitrina, no qual a forma original é mais usada (guidom, garçom, vitrine)

Abreviatura leva acento? Leva. Se houver acento gráfico na parte restante da palavra que foi abreviada, esse sempre se manterá: núm. (número) gên. (gênero) pág. (página) Álg. (Àlgebra) Acúst. (acústica)  

Mas porém É muito comum, na linguagem popular, o uso da expressão "mas porém". Ex.: Quero um carro desse tipo, mas porém usado. Tal fato resulta da completa alienação relativamente ao significado dessas duas palavras. "mas" e "porém" são sinônimos, de modo que dizer "mas porém" equivale a dizer "mas mas".  É um pleonasmo vicioso.

Como usar corretamente os verbos pronominais

 Verbos pronominais são aqueles acompanhados por pronomes me, te, se, nos, vos e se (pronomes oblíquos átonos). Esse tipo de verbo é usado para indicar ações relativas ao sujeito que as pratica. Sendo assim, o verbo deverá ser conjugado sempre acompanhado do pronome oblíquo correspondente à pessoa gramatical do sujeito. Exs.: Eu me queixo/ Tu te queixas / Ele se queixa / Nós nos queixamos/ Vós vos queixais/  Eles se queixam “Queixar-se”, gramaticalmente, é classificado como um verbo essencialmente pronominal, isto é, que invariavelmente é conjugado acompanhado do pronome oblíquo. Outros exemplos são os verbos: arrepender-se, sentar-se, zangar-se, pentear-se, enganar-se, suicidar-se. Há verbos classificados como eventualmente pronominais, isto é, que podem ou não ser conjugados acompanhados do pronome oblíquo. Exs.: O analista debateu os assuntos do relatório com os gerentes. Como não sabia qual era a melhor opção, o colaborador se debateu dias e dias até chegar a uma decisão. Apenas no segundo exemplo o verbo “debater” está na versão pronominal. A diferença de sentido nos dois exemplos é visível: no primeiro, “debater”, sem ser pronominal, significa “discutir”; no segundo, sendo pronominal, o sentido é de “passar por dificuldades”. Entretanto, cabe ressaltar que a mudança de sentido não é quesito para diferenciar um verbo essencialmente pronominal de um eventualmente pronominal. Não há diferença de sentido, por exemplo, no uso dos verbos “envolver” ou “lembrar”: Exs.: Lembrou-se de enviar os documentos / Lembrou meu nome. Envolveu-se na discussão. / Envolveu todos os colaboradores na decisão. A alteração, neste caso, é da regência do verbo. O verbo “lembrar”, quando pronominal, requer a preposição “de”; sem ser pronominal não. O verbo “envolver”, quando pronominal requer a preposição “em”, sem ser pronominal, não necessariamente. Mas, tem-se percebido que os falantes, ao usar o idioma rotineiramente, às vezes, usam um verbo não pronominal como se ele o fosse, Por exemplo, o sentido do verbo “interagir” já contempla a ideia de ação mútua ou compartilhar algo com o outro, por isso, é redundante utilizá-lo acompanhado de um pronome oblíquo átono. É incorreto (e redundante) escrever ou dizer: “eles se interagem”, “eu me interagi”. O pronome é perfeitamente dispensável. Por isso, atenção aos verbos pronominais (os essencialmente ou eventualmente pronominais) e evite usar “me” e “se” acompanhado de verbos que não requerem esses pronomes. 

Concordância verbal - principais regras

 Ocorre quando o verbo se flexiona para concordar com o seu sujeito.


Exemplos: 

Ele gostava daquele seu jeito carinhoso de ser./ Eles gostavam daquele seu jeito carinhoso de ser.


Alguns Casos de concordância verbal:


Casos especiais:


a) O sujeito é um coletivo - o verbo fica no singular.


Ex.: A multidão gritou pelo rádio.


Atenção: 

Se o coletivo vier especificado, o verbo pode ficar no singular ou ir para o plural.


Ex.: A multidão de fãs gritou./ A multidão de fãs gritaram.


b) Coletivos partitivos (metade, a maior parte, maioria, etc.) – o verbo fica no singular ou vai para o plural.


Ex.: A maioria dos alunos foi à excursão./ A maioria dos alunos foram à excursão.


c) O sujeito é um pronome de tratamento - embora se refiram à 2ª pessoa, o verbo fica sempre na 3ª pessoa (do singular ou do plural).


Ex.: Vossa Alteza pediu silêncio./ Vossas Altezas pediram silêncio.


d) O sujeito é o pronome relativo "que" – o verbo concorda com o antecedente do pronome.


Ex.: Fui eu que derramei o café./ Fomos nós que derramamos o café.


e) O sujeito é o pronome relativo "quem" - o verbo pode ficar na 3ª pessoa do singular ou concordar com o antecedente do pronome, por razões de ênfase.


Ex.: Fui eu quem derramou o café./ Fui eu quem derramei o café.


h) O sujeito é formado pelas expressões: mais de um, menos de dois, perto de, cerca de..., etc. – o verbo concorda com o numeral. Se a expressão mais de um vier repetida ou indicar reciprocidade, o verbo deve ser usado no plural.


Ex.: Mais de um aluno não compareceu à aula./ Mais de cinco alunos não compareceram à aula.


i) O sujeito é constituído pelas expressões: a maioria, a maior parte, grande parte, etc. - o verbo poderá ser usado no singular (concordância lógica) ou no plural (concordância atrativa).


Ex.: A maioria dos candidatos desistiu./ A maioria dos candidatos desistiram.


j) O sujeito tiver por núcleo a palavra gente (sentido coletivo) - o verbo poderá ser usado no singular ou plural, se este vier afastado do substantivo.


Ex.: A gente da cidade, temendo a violência da rua, permanece em casa./ A gente da cidade, temendo a violência da rua, permanecem em casa.

2) Sujeito composto


Regra geral

O verbo vai para o plural.


Ex.: João e Maria foram passear no bosque.


Casos especiais:


a) Os núcleos do sujeito são constituídos de pessoas gramaticais diferentes - o verbo ficará no plural seguindo-se a ordem de prioridade: 1ª, 2ª e 3ª pessoa.


Ex.: Eu (1ª pessoa) e ele (3ª pessoa) nos tornaremos (1ª pessoa plural) amigos.



O verbo ficou na 1ª pessoa porque esta tem prioridade sob a 3ª. 

Ex: Tu (2ª pessoa) e ele (3ª pessoa) vos tornareis (2ª pessoa do plural) amigos.


O verbo ficou na 2ª pessoa porque esta tem prioridade sob a 3ª.


Atenção: No caso acima, também é comum a concordância do verbo com a terceira pessoa.



Ex.: Tu e ele se tornarão amigos. (3ª pessoa do plural)


Se o sujeito estiver posposto, permite-se também a concordância por atração com o núcleo mais próximo do verbo.


Ex.: Irei eu e minhas amigas.


b) Os núcleos do sujeito estão coordenados assindeticamente ou ligados por “e” - o verbo concordará com os dois núcleos.


Ex.: A jovem e a sua amiga seguiram a pé.


Atenção: Se o sujeito estiver posposto, permite-se a concordância por atração com o núcleo mais próximo do verbo. Se houver ideia de reciprocidade, a concordância no plural é obrigatória.

Ex.: Seguiria a pé a jovem e a sua amiga.


c) Os núcleos do sujeito são sinônimos (ou quase) e estão no singular - o verbo poderá ficar no plural (concordância lógica) ou no singular (concordância atrativa). 

Ex.: A angústia e ansiedade não o ajudavam a se concentrar./ A angústia e ansiedade não o ajudava a se concentrar.


d) Quando há gradação entre os núcleos - o verbo pode concordar com todos os núcleos (lógica) ou apenas com o núcleo mais próximo. 

Ex.: Uma palavra, um gesto, um olhar bastavam./ Uma palavra, um gesto, um olhar bastava.


e) Quando os sujeitos forem resumidos por pronomes indefinidos como todos, nada, tudo, ninguém... - o verbo concordará com o aposto resumidor. 

Ex.: Os pedidos, as súplicas, o desespero, nada o comoveu.


f) Quando o sujeito for constituído pelas expressões: um e outro, nem um nem outro... - o verbo poderá ficar no singular ou no plural. 

Ex.: Um e outro já veio./ Um e outro já vieram.


g) Quando os núcleos do sujeito estiverem ligados por ou - o verbo irá para o singular quando a ideia for de exclusão ou sinonímia, para o plural quando for de inclusão e concorda com o mais próximo quando for de retificação.

Exemplos: 

Pedro ou Antônio ganhará o prêmio. (exclusão) 

O complemento verbal ou o objeto é um termo integrante da oração. (sinonímia)

A poluição sonora ou a poluição do ar são nocivas ao homem. (adição)

Os ladrões ou o ladrão assaltou o banco. (retificação)


h) Quando os sujeitos estiverem ligados pelas séries correlativas (tanto... como/ assim... como/ não só... mas também, etc.) - o que comumente ocorre é o verbo ir para o plural, embora o singular seja aceitável se os núcleos estiverem no singular. 

Exemplos: 

Tanto Erundina quanto Collor perderam as eleições municipais em São Paulo.


Tanto Erundina quanto Collor perdeu as eleições municipais em São Paulo.  

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